A utopia ibérica de Saramago

josepilar_imagemEm visita à Casa José Saramago em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, conversei com a jornalista e tradutora Pilar del Río, mulher do escritor. A reportagem, emitida em português pela Radio Nacional de España/ Radio Exterior, você escuta aqui, no minuto 0’51” PLAY

Abaixo, transcrição da reportagem produzida para a rádio e fotos da casa de José e Pilar.

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(Música. Bachianas Brasileiras nº 1 – Conversa – Heitor Villa-Lobos)

Lanzarote, Espanha. Nesta ilha canária, o escritor José Saramago morou por 18 anos, até o fim de seus dias. E foi nestas paragens, lembranças de fúria vulcânica, que a literatura de Saramago ganhou uma nova perspectiva. Da fase “Estátua”, seus escritos passaram à da “Pedra”. Na etapa Pedra, inaugurada justo em uma ilha onde a lava petrificou a paisagem, Saramago explorou mais a fundo a singular matéria da estátua, direcionando seu olhar ao indivíduo, mais que ao coletivo.

Saramago_IMG_8403No escritório do piso térreo, sobre uma mesa de pinho e cercado de dicionários, discos e retratos, Saramago escreveu as primeiras linhas de “Ensaio sobre a Cegueira”, o primeiro livro do período de “escavação na pedra”, definição do próprio escritor. Foi a esta mesa que o português se sentava para escrever suas duas páginas diárias. Pilar del Río, jornalista e tradutora, casada com José Saramago por 22 anos, nos recebeu na casa de Lanzarote, onde viveram juntos. Ela nos fala da rotina do escritor e das obras que nasceram naquela que Saramago chamava “uma casa feita de livros”.

Pilar del Río: “ Desde ‘Ensaio sobre a Cegueira’, todas. Até ‘Caim’, até a que vai sair daqui a pouco: ‘Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas’, que aparecerá este semestre…”

Jornalista: “Duas páginas ao dia, não é Pilar?”

Pilar: “- Desde que não estivesse viajando, sim. Ele escrevia basicamente na parte da tarde, de manhã respondia cartas, lia, e tudo muito tranquilo, muito pacífico, sem drama, sem tragédia, nem mesmo quando a doença se fez presente ele a viveu como uma tragédia, nunca, porque viver também é morrer.”

(Música. Johann Sebastian Bach. BWV 988 – Goldberg variations 1 a 1. Glenn Gould)

Saramago_IMG_8399Mas não só de livros é feita a casa de Pilar e Saramago em Lanzarote. Há pinturas e fotografias por todas as partes, com obras de Antoni Tàpies, Cesar Manrique e até dos brasileiros Sebastião Salgado, Oscar Niemeyer e Carybé. Mas além de literatura e pintura, José Saramago nutria outra grande paixão: a música. Mozart, Bach, Beethoven, Béla Bartok, Chopin… Estes eram alguns dos compositores preferidos de Saramago e sua companhia enquanto escrevia livros. De fato, a temática musical está muito presente na obra de Saramago, com destaque para Claraboia, As Intermitências da Morte e Memorial do Convento. Pilar del Río comenta que a música era, para Saramago, fundamental, definitiva e necessária para que as pessoas se levantem do chão.

“– Seu primeiro romance, Claraboia, já é um tratado de música, de sua importância, que culmina em As Intermitências da Morte, quando o protagonista é um violoncelista. Então, a música para Saramago era fundamental, era definitiva. Em todos os seus livros a música é necessária para que as pessoas se levantem do chão.” (no áudio, sonora sem tradução)

Samarago escrevia ouvindo música, em alto e bom som para desespero de Pilar, que prefere trabalhar em silêncio.

Pilar: “– Sim. Sim para meu desespero, porque eu estava no quarto debaixo e eu não posso trabalhar, não posso escrever ouvindo música.”

Jornalista: “Música no último volume, Pilar?”

Pilar: “– E ele punha música alta e eu tinha que fechar as duas portas, não sei o quê, me protegia da música. Ele ouvia muito Bach, Beethoven, Chopin, dependia do estado de ânimo com que se despertava. A música lhe completava e nos últimos meses, quando lhe costava ler, viveu ouvindo música. Inclusive, tínhamos uma espécie de cinema em casa e eu lhe punha concertos e óperas.”

(Música. Johannes Brahms. Cello Sonata nº 1 in E Minor)

Saramago_IMG_8407Pilar del Río tinha o privilégio, mas também o desafio, de traduzir o livro ao lado do autor. Ao contrário do que se pode pensar, ela não saía consultando o escritor a qualquer momento do dia. Como os demais tradutores, ela perguntava por escrito. Como comentou o escritor Carlos Fuentes, em visita ao casal, estar debaixo do mesmo teto “é um privilégio para o tradutor, mas também para o autor”.

Pilar: “– Consultava e então discutíamos, então não consultava (risos). Como os demais tradutores, eu perguntava por escrito! É que eu sabia, quando traduzia as duas páginas diárias, como ia continuar o livro e como ia acabar o livro. Então claro que era um privilégio. Isso dizia Carlos Fuentes, ‘é um privilégio para a tradutora, mas também é um privilégio para o autor ter a tradutora em casa (risos), dizia Fuentes um dia que esteve aqui em casa.”

Saramago_IMG_8444Saramago só punha mãos à obra quando tinha muito claro o que ia escrever. E assim que escrevia as duas páginas diárias, Pilar as traduzia.  Em geral não havia muitas modificações, mas às vezes alguns personagens ganhavam protagonismo, como a mulher do médico em “Ensaio sobre a Cegueira”. Saramago escrevia e logo corrigia a tradução ao espanhol. Se introduzia modificações ao texto, Pilar voltava a traduzi-lo e o escritor, a revisá-lo. Era muito mais trabalhoso, diz Pilar, mas mais criativo.

Pilar: “– Então quando ele tinha muito claro o livro, ele se punha a escrever. Evidente que logo a necessidade de narrativa o fazia ir por um caminho o ir por outro, ou dava mais protagonismo a um personagem… No ‘Ensaio sobre a Cegueira’, a mulher do médico não tinha tanta importância e foi cobrando personalidade. Mas Saramago sabia bem aonde queria chegar desde o princípio.” (no áudio, sonora sem tradução)

Jornalista: “– Então ele escrevia as duas páginas e imediatamente você as traduzia…”

Pilar: “– E logo ele corrigia, e eu voltava a escrever o que havia escrito. E logo ele introduzia outra modificação, e eu voltava a corrigir (risos)! Era muito mais trabalhoso, mas também era mais criativo.” (sonora sem tradução)

Saramago_IMG_8466O “Evangelho Segundo Jesus Cristo”, a obra mais polêmica de Saramago, foi o motivo de sua mudança de Lisboa para Lanzarote. Membros do governo português se opuseram a que o livro representasse o país no Prêmio Literário Europeu.

Pilar: “– Saramago publicou o Evangelho Segundo Jesus Cristo, que é um livro literário belíssimo, lidíssimo, aceitadíssimo, com imediatamente centenas de milhares leitores, e o primeiro ministro não gostou. Ele e o governo de Portugal naquele momento fizeram umas declarações tão absurdas, tão estúpidas, que Saramago teve vergonha. Ver-go-nha! Chegaram a dizer  em sessão parlamentar que o Evangelho não poderia representar Portugal por três razões: porque ofendia a consciência católica dos portugueses, porque um comunista não pode representar um país e a terceira porque estava mal escrito. Então ele disse, não só são uma inquisição, como críticos literarios. Sentiu tanta vergonha que disse: vou embora.”

Saramago_IMG_8439E no seu autoexílio em Lanzarote, Saramago forjou sua utopia. Nas palavras do autor, a de “uma Península Ibérica, entre a América do Sul e a África, tornada ilha, cercada de mar por todos os lados, comunicando com tudo o que está fora dela”. O prêmio Nobel de literatura lançou polêmica quando sugeriu que Portugal se integrasse à Espanha, formando um país novo, Iberia ou Federação Ibérica. Este raciocínio inspirou o livro “Jangada de Pedra”, de 1986, onde Portugal e Espanha se separam da Europa nos Pireneus e flutuam para o centro do Atlântico. Seria Lanzarote a utopia ibérica de José Saramago?

Pilar: “– Espanha e Portugal compartilham um território, a Península Ibérica. E Saramago disse uma obviedade que não sei porque escandaliza. Ele falou de união política? Não. Sobretudo porque a península ibérica é um mosaico de povos e de culturas distintas. Ele falava de unir esforços entre os povos peninsulares, porque já somos uma união geográfica. E quem se assusta é porque lhe custa dar o segundo passo.”

(Música. Frédéric Chopin. Nocturne in E flat)

Saramago_IMG_8421José Saramago dizia que nove meses é o tempo que dura a nossa memória. E que existimos enquanto perdura a lembrança e o significado de nossas vidas nas pessoas que nos amaram. Foi por isso, para impedir a morte definitiva de Saramago, que Pilar abriu as portas da casa onde viveram por quase duas décadas. Nove meses depois da morte de Saramago, em junho de 2010, a casa com vista para o mar e as montanhas vulcânicas receberia os admiradores do escritor. Com a casa sempre cheia, Pilar demonstra a Saramago que ele estava errado e continua vivo na memória de quem o ama.

Pilar: “– Ele dizia que o tempo para o esquecimento dura nove meses, o mesmo que dura a gestação de um ser humano. Eu nove meses depois de sua morte eu disse ‘não te esquecemos, ao contrário: tua casa estará viva, teus quadros serão olhados, tua música seguirá soando, a luz da tua mesa estará acesa… você se enganou. Nisso se enganou. Não te esquecemos, não queremos te esquecer’.”

JosePilarSaramago dizia que Pilar del Río era sua casa. Lanzarote lhe dava ar e Pilar, equilíbrio. E agora, a jornalista e tradutora que se apaixonou por Saramago antes mesmo de conhecê-lo, através dos seus livros, continua um projeto que foi concebido pelos dois: a Fundação Saramago, da qual Pilar del  Río é presidente.

Pilar: “– Trabalhamos para alargar o pensamento, organizamos debates, publicamos livros. Estamos atentos e vigilantes para que sua palavra não se tergiverse. Somos uma fundação portuguesa com vocação universal. Para combater o desânimo, a desesperança e a resignação, muita gente pensa e se vale de Saramago, e disso eu sei, tenho respostas todo dia como presidente da Fundação José Saramago.”

(Música)

A lucidez de José Saramago e o legado de sua obra persistem na memória e são a prova, como bem disse o escritor, de que “a viagem não acaba nunca”.

(Música. Levantados do Chão, Chico Buarque e Milton Nascimento)

Lanzarote_by Michelly Teixeira

Fotos: Michelly Teixeira (exceto a primeira, em que José e Pilar aparecem juntos em Lanzarote, do jornal “Expresso de Portugal”)

“¡Qué buenas estrellas estarán cubriendo los cielos de Lanzarote!” Saramago

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